Bloqueio

10 out

Quando chegou em casa, o gato estava em cima do teclado. Tratou de espanar o bichano de lá com um sacudir de mãos, deixou cair o corpo sobre a cadeira velha e sem braços, alongou os dedos e começou a digitar.

Uma palavra, duas, uma frase. Meneou de lado com a cabeça, resmungou e apagou tudo. Na segunda tentativa, escreveu um parágrafo. Apagou-o com cinqüenta e quatro toques no backspace. A terceira investida não sobreviveu por mais de três linhas.

Levantou-se, preparou um café. Chafurdou no fundo da bolsa até encontrar um surrado Moleskine, onde poderia estar escondida, desapercebida, ou mesmo esquecida, a ideia triunfante.

E ideias ela encontrou de fato.

A história de um pingo de chuva que queria voltar para o céu. A jornada de um garoto em busca do responsável pelo formato das nuvens. O drama de um casal de suicidas que se encontra no pós -vida. As aventuras de um jardineiro que, sem querer, replantou o Éden com a semente do fruto do conhecimento. O surgimento do primeiro robô-zumbi. O samurai que forjou sua espada das cinzas da própria filha. O assassino que arrancava a mão esquerda de suas vítimas. Um conto onde todas as palavras começam com a mesma letra. Uma crônica em que o título é maior que o texto.  A doença que extinguia toda a maldade de um ser humano. A briga das cores que deixou o mundo em preto e branco.

Sentou-se novamente, não sem antes dar um chute no gato com o lado do pé. De posse do caderninho, digitou por três horas.

Passou-se o dia e a noite, e viu ela que era muito ruim.

Atingida com um lampejo repentino de lucidez ou delírios insones, começou do zero. Dizem que o melhor para vencer um bloqueio, se você não for um jogador de vôlei, é começar com uma frase. Estralou os dedos, deu um gole no café gelado, espantou mais uma vez o gato carente e digitou:

“Quando chegou em casa, o gato estava em cima do teclado.”

Tags:, , ,

Três Vidas

10 ago

Baseado na música “oração” – A Banda Mais Bonita da Cidade

 

As chaves rodaram ruidosamente na fechadura: era o marido que voltava, o violão pendurado nas costas, o semblante alterado. A porta chocou-se contra a penteadeira no canto da parede.

- Você não podia ter deixado esse troço na casa da sua mãe? Não dá nem pra entrar sem se espremer!

- Já te disse que é a última lembrança da minha avó. Como foi a apresentação? – perguntou a mulher com o olhar distante.

- Como todas as outras. A gravadora não gostou do meu som, disseram que eu tenho que compor algo mais – qual foi a palavra? – “tocante”. O que é esse papel na sua mão? Já disse pro Seu Almeida que pago o aluguel na semana que vem, só tenho que…

- Eu tô grávida.

E o silêncio se fez, entrecortado apenas pelos ruídos da cidade emoldurada pelos vidros sujos da janela. Ele apenas lembrou que a amava, e que por esse amor eles fugiram pra viver a própria vida, juntos. Ela sentou-se na cama, ele fez o mesmo após pular o fio da TV. Naquele lugar diminuto e simplório que chamavam de lar, como abraçariam estas três vidas inteiras?

Ele rascunhou um abraço, ensaiou palavras, mas só conseguiu balbuciar:

- Onde a gente põe o berço?

- Que tal na dispensa? Tá vazia mesmo…

- Não cabe.

- O que a gente faz agora?

Sem que soubesse porque, seu semblante tornou-se brando, de uma mansidão amorosa. Ele sentiu seu coração imenso, mais vasto que o mundo.

- Vai dar tudo certo, meu amor. Vamos fazer uma oração, nem que seja a última coisa. É tudo que nos resta.

- Simples assim? Eu também te amo. Me abraça?

E naquele ninho rústico nasceu uma família. A mais bonita da cidade.

Criação

26 mai

Antes da gestação deste universo, quando o tempo ainda não era, Ele resolveu criar mais uma versão da existência. Uma que fosse maior, mais variada e interessante que a anterior. Era assim que Se distraía do fardo da infinitude.

Mas como? – Ele ponderou, e Sua reflexão durou o que para alguns seriam eras, e para outros, segundos.

De seu âmago, origem e fim de todas as coisas, encontrou a resposta que já sabia: criaria a arma definitiva, nunca antes imaginada nem mesmo por Ele. Uma arma cujo poder fosse tão grande que seria capaz de surpassar até mesmo o Seu poder, que poderia usurpar Sua onipotência suprema.

Ele a colocaria à mercê da nova criação, mesmo que isso implicasse Sua morte.

Então ele a criou. E Seu primeiro ato foi batizá-la de Livre Arbítrio.

Mãos

23 abr

Somos só nós dois sob a luz branca. Enquanto ouço a batida de seu coração, sua mão repousa na minha, sua presença me preenchendo.

Meus olhos buscam a janela. Estamos no longe, além do vidro sujo, navegando na paisagem sob as árvores, os dedos entrelaçados. A felicidade então raiando poderosa, espalhando-se pelo caminho salpicado de luz. Ela ri da minha bochecha suja de sorvete, enquanto limpa a mancha com o polegar e a substitui por um beijinho breve, sem se importar com minha falta de jeito para as coisas triviais. Cuidado, bobinho, deixa que eu limpo. Eu, que sabia resolver equações complexas, mas amarrava os sapatos ao jeito infantil, as orelhinhas na toca; eu que projetava prédios, mas nunca havia feito um castelinho de cartas.

Baixo o olhar, encabulado. Fito o par de tênis que ela me deu naquela viagem, a primeira, quando visitamos seus parentes do interior.
Estamos lá, na cidadezinha, desfazendo as malas. Ela ri despreocupada quando digo que esqueci meus sapatos. Nunca havia usado tênis antes, julgava-os muito joviais e descontraídos para mim. Mas ela, de dentro de sua aura de otimismo e alegria, me ensinava a ver novos detalhes, entalhados nos cantos da vida. Viu só? Ficaram lindos.


Secretamente, admiro seu sorriso espontâneo, tão leve e gostoso quanto no dia daquela reunião, quando nos conhecemos.
Lá estou eu, pé apoiado no joelho sacudindo frenético enquanto me estresso com os negócios. Que horas é a reunião com a empresa de design? Eu a vejo entrando na sala, os olhos sagazes e o sorriso simpático enquanto aperta a minha mão. É um prazer.

Foi um prazer. O suficiente para que marcássemos várias outras reuniões, desnecessárias, apenas para vislumbrar por alguns instantes aquele improvável sentimento nascendo clandestino. Ele crescia invisivelmente grande, no tom de voz, no café após o almoço, na caminhada pela calçada, na minha falta de habilidade em entender o que acontecia. E ela já ali, me ensinando o não quantificável da vida, as pequenas surpresas por trás dos gestos banais, a alegria simples e sem razão.

Estou no meu minúsculo apartamento, me perguntando por onde se deu o intrincado trajeto entre a sala de reuniões e esta estranha intimidade. Eu lhe dou o copo d’água enquanto ela observa, interessada, os livros mortos na estante, a TV antiga, as paredes descascando. Minha vida marrom, bege e cinza. Geométrica. Nossas mãos se tocam quando ela devolve o copo. Depois, nossos lábios.

Estamos numa igreja. Ela diz sim. Posso beijar a noiva. As alianças simbolizando o que ela sempre me mostrou: que nada realmente tem um começo ou um fim. E que, no emaranhado de fios tecidos ao acaso, nós vamos fazendo a tessitura que nos mantém entrelaçados, vamos enrolando juntos os cordames de nossas vidas. Um cordão de duas dobras não se quebra facilmente.

As folhas do calendário caem impiedosas. Seguro nas mãos o álbum de fotografias, cheio de recortes e desenhos coloridos. Ela faz tudo mais colorido. Estamos nos conhecendo, estamos nos casando, estamos viajando para o interior, estamos passeando no parque. Bailamos pela vida, alheios ao tempo. Ela me conduzindo, e eu descobrindo, a cada passo, que não há coreografia errada.

Estou no trabalho, entre os mesmos móveis que testemunharam nosso primeiro aperto de mãos, sem saber que a tarde macia esconde em seu bojo as agulhas da angústia. O telefone toca, uma voz preocupada carrega a notícia derradeira.

Estou no hospital, ela sorri para mim. Seu sorriso nunca foi disfarçado, nunca insincero. Está tudo bem, meu anjo. Meus olhos expulsam uma lágrima. Grito com o médico, com a sorte, com a vida. Nós dois tão impregnados um do outro, tão sujos de lembranças. Somente a lâmina fria do destino poderia desfazer, à força, o nó dos nossos fios unidos.

Quem me ensinaria a costurar a vida com o linho escarlate da saudade?

Somos só nós dois sob a luz branca da UTI. Ouço nos aparelhos a batida hesitante do seu coração, enquanto sua mão jaz na minha, sua ausência se pronunciando.

O Observador

16 fev

Eu sou aquele que tudo vê.

 

Eu vi o crepúsculo de universos agonizantes e a aurora de novas existências. Vi o vazio que antecede o ser e o ser que antecede o estar.

 

Eu vi.

 

Eu vi nascer o primeiro risco de luz e morrer o último lençol de trevas. Vi o tempo debutando seu inexorável domínio.

 

Eu vi.

 

Eu vi a vida eclodir da matéria e o infinito fazê-la insignificante. Vi espécies nunca conhecidas se extinguirem num lampejo.

 

Eu vi.

 

Eu vi o núcleo de átomos partindo-se e eventos infinitesimais que mal existiram. Vi os primeiros neurônios conversarem entre si.

 

Eu vi.

 

Eu vi o Homem criar seus deuses e abandonar sua caverna. Vi impérios surgirem e a história esquecê-los.

 

Eu vi.

 

Eu vi cada cordão umbilical que se rompeu e cada fio de vida que se rasgou. Vi de perto toda morte, chorada ou não.

 

Eu vi.

 

Eu vi o centro de galáxias devorarem suas estrelas e o medo devorar reis. Vi o interior de cometas e o exterior de moléculas.

 

Eu vi.

 

Eu vi a caminhada das eras em direção aos sonhos e os insanos despertando lucidez. Vi segredos desvelados e verdades questionadas.

 

Eu verei, eu vejo, eu sou.

 

Eu sou aquele que tudo vê.

 

Sim, eu o vi assistindo pornografia na internet.

 

 

 

A Queda

8 fev

Quando estavam a 82.000 pés de altura, veio a notícia: o avião ia cair. Não que o piloto houvesse admitido tal tragédia iminente, isso não é permitido, afinal, a companhia aérea deve zelar belo bem-estar dos passageiros e evitar pânico e correria. Vai que alguém morre numa dessas… Não, não foi com palavras que a sentença veio. Mas quando a comissária saiu chorando da cabine da tripulação, aos prantos e soluços, todos puderam juntar as peças: o clarão nas janelas do lado direito, o barulho estrondoso e a turbulência forte e constante. O avião ia se espatifar em algum ponto das cordilheiras, talvez se transformar numa bola de fogo e metal retorcido, ou quem sabe afundar em alto mar recheado de corpos esbranquecidos e inchados.

Quando estavam a 70.000 pés, Camilo esbugalhava os olhos na classe econômica, inspirando ruidosamente e olhando para o negro do céu, com medo de morrer. Mas a vida que passava ante seus olhos era uma vidinha de merda. Odiava seu emprego, seu casamento e seu nariz. Tentou buscar na memória algo que o fizesse feliz nessa mediocridade toda, e só uma coisa lhe veio à cabeça: as coxas da Ritinha. Secretária do escritório, ela não demorou muito a ceder às idas galanteadoras do Camilo à máquina de Xerox. Bela saia, dona Ritinha. Na verdade, estava naquele exato momento viajando escondido para ver a amante, que estava de férias. A visita a um amigo convalescente foi a desculpa dada à mulher.

Quando estavam a 60.000 pés, ele olhou para o lado e viu uma família inteira, pai, mãe, filho e filha, se abraçando com ternura apesar do sacolejar do aeroplano, talvez conformados com seus destinos e esperançosos de fazerem juntos a grande travessia. Que merda, devia ser isso: castigo por trair a mulher há tanto tempo. Será que tudo estava perdido e não havia chance para redenção ou ao menos morrer com honra? Ah, as coxas da Ritinha!

Quando estavam a 40.000 pés, desejou acreditar em algo. Um deus, uma causa social, uma banda rock com inclinações humanitárias, um produto do Shop Time, qualquer coisa. Reparou que um pouco à frente, em meio ao burburinho de sons horríveis e gemidos que as pessoas fazem à beira da morte, havia um balofo de terno e gravata que empapava a camisa branca de suor. Colado à poltrona, ele agarrava uma bíblia à testa, fechando os olhos com força e sussurrando putaqueparilputaqueparilputaqueparil.

Quando estavam a 30.000 pés, ele pensou: fudeu!

Quando estavam a 15.000 pés, ele percebeu que não havia nada a ser feito, mas que talvez uma pequena confissão o ajudasse a melhorar seu nível de conforto na vida-após-a morte em que todos acreditamos antes de morrer. Decidiu escrever um bilhete de desculpas à mulher, confessando tudo. Tinha fé (ou algo como fé) de que, se o avião caísse na água, eles encontrariam seu corpo esbranquiçado e inchado com um papel molhado no bolso. Que romântico!

Quando estavam a 4.500 pés, ele terminou de escrever a seguinte notinha em letras trêmulas e versos escabrosos:

 

Querida esposa, desculpa, eu morri.

Meu corpo está podre e não tenho mais pé

Confesso que sinto falta e até já ri

De você reclamando do meu chulé.

 

Mas são outras desculpas que quero pedir

Apesar do carinho que lhe tinha

Confesso que acabei por te trair

Com aquela gostosa aproveitadora da Ritinha

Espero que um dia você possa me perdoar

Estou morto de arrependimento

Saiba que sempre vou estar

Em tua memória de jumento

(desculpa também pelo último verso, fiquei sem rimas e uma criança acabou de vomitar em mim).

 

 

Quando estavam a 312 pés, meteu o pepel no bolso da camisa, fechou os olhos e apertou os dentes, esperando pelo impacto. Estavam sobre o oceano. Que bom!

Quando estavam a 49 pés, ele desejou ter vivido mais dignamente. Se houvesse chance, arranjaria um emprego decente, faria uma plástica no nariz e retomaria seu casamento, como deve ser. Faria da sua esposa a mulher mais feliz do bairro.

Quando estavam a 278 pés de altura, veio a notícia: o avião não ia mais cair. Não que o piloto houvesse anunciado a boa-nova. Mas quando a comissária saiu sorridente da cabine da tripulação, gritando de alegria, todos puderam juntar as peças: o tempo clareando lá fora, as nuvens inclinando para o outro lado, o fim da turbulência. A família que se abraçava olhou em volta, meio aliviada, meio embaraçada. O balofo limpava o suor com um lenço sujo, beijando a bíblia e sussurrando graçasaDeusgraçasaDeusgraçasaDeus. A criança vomitou de novo.

Quando estavam na pista de pouso, seguros, Camilo pôde distinguir a silhueta da Ritinha, pequenininha lá longe, o par de coxas esperando por ele.

Lentamente tirou o bilhete do bolso, leu-o novamente e rasgou-o em trinta mil pedaços.

 

Sol e Mar

25 jan

A noite flutua clara sobre a enseada, embebida na luz de uma Lua indiferente. Chove nos meus olhos. Em meu ser, mar a dentro, o vagalhão irrefreável da saudade varre os últimos vestígios de vida. As lembranças que tenho dela, antes tão boas, se umedecem em gotas de sofrimento, e eu já me engasgo com as memórias.

 

52946412_29b75c9f86-lua de prata

Foi aqui, neste mesmo litoral, banhado por estas mesmas ondas, que nos conhecemos, um amigo em comum fez as apresentações, atou os laços dos nossos futuros. As milhas entre a descoberta, o encantamento e o apaixonar foram percorridas a largas braçadas por ambos. E foi assim, em um dia qualquer, na breve distração do acaso, que tropeçamos na felicidade.

Lembro-me de seu sorriso esperançoso como um raio de sol por entre as nuvens. Cada vez que ela falava, tímida, suas palavras borboleteavam no ar. Que deliciosas soavam no vibrar da sua voz! Como eu desejava que fossem mesmo borboletas! Poderia aprisioná-las e admirá-las, brincar com seus rodopios, estudar o padrão das suas asas. Mas elas insistiam em voar através dos meus ouvidos, deixar casulos na memória e ir-se para além, em direção aos sonhos, às trevas, ao nada. Em pouco tempo ela se mudou para minha casa, embora já habitássemos a alma um do outro. Eu então suspeitava que tamanha alegria só era possível porque sorvida em pequenos goles. Mas mesmo naquele então, quando a presença dela me alimentava qual Sol à planta, constante, sempre havia um quero-mais, uma dança de girassol em direção à luz. A vida explodia colorida como aqueles recifes de coral em águas rasas ladeados por multiformes seres ziguezagueantes.

Nós adorávamos passear na praia, e eu vibrava no íntimo ao sentir a textura de seu cabelo ondular por entre os dedos. Aquela expressão de calma enquanto dormia, o respirar suave e ritmado, a cabeça abandonada no meu colo, as bochechas sujas de areia. Ao lado sempre erguia-se tímido e disforme um castelinho recém construído, tão frágil e pueril quanto qualquer esperança. E enquanto esquecíamos o mundo e seus males, nossos grãozinhos de felicidade se acumulavam em uma grande ampulheta que, cedo ou tarde, se esgotaria.

 

praia copy

As semanas fluíam invisíveis em seu continuar. E nós à deriva, caminhando de mãos dadas, chutando poças d’água, sorrindo para qualquer pequenez do cotidiano. Mergulhamos um no outro: nossa concha ultramarina de amar. Tudo era Sol, tudo era céu, tudo era sim. E a imensidão dentro de nós, mesmo pequenina para os nossos sentimentos, dissipava qualquer nuvem que viesse a macular o seu azul.

Mas todo Sol há de ter seu eclipse, toda cheia há de ter sua ressaca.

O tempo passou, voraz e devorador, e os ventos sibilantes da paixão iam, pouco a pouco, aquietando-se em brisa sussurrante. A nossa empolgação, tanta que fazia doer o peito, foi se erodindo e sossegando no pingar dos dias.

Afundávamos no solo movediço das rotinas.

Veio o tempo das palavras não-ditas. O eu-te-amo encalhado na garganta, esvaindo-se em suor de esquecimento. E então as palavras mal ditas. E, por fim, as palavras malditas. Meu tom de voz tornou-se grave, trovejante. Veio a primeira lágrima, debutando em seus olhos: a primeira porção de um oceano de distância.

No imperceptível fluir do tempo nós nos afastávamos. São assim as piores tragédias, quietas, pacientes, não dão chance para alertas. Vão montando seus fragmentos aos pouquinhos, camuflando-os no calar dos olhos, nas sutilezas dos gestos, no silêncio das entrelinhas.

Ergo sobre os ombros essa culpa. A verdade, confesso, é que tornei-me ciumento, tempestuoso, e o cuidado dos primeiros dias transfigurou-se em um monstro possessivo, pronto a emergir suas presas ao sentir-se acossado. Eu rebaixei-a ao estado de coisa, uma espécie tesouro que era meu, só meu.

Eu me irritava quando, nos eventos sociais, ela já não precisava agarrar-se no meu braço e enrubescer a face a cada cumprimento que recebíamos. Ela voava livre, desenvolta, capaz de trocar palavras sobre quaisquer assuntos com qualquer pessoa. No exato instante em que percebi sua independência, estremeci. Raios! Eu deixara de ser aquela chuva de verão da qual minha flor necessitava.

Foi quando a encerrei em minha gaiola de inseguranças e passamos a sair em público somente quando as convenções sociais se faziam esmagadoras. Qualquer olhar que pousassem sobre ela me deixava irritadiço e carrancudo. Se a vida imitasse a ficção, as histórias reais fariam sentido e eu poderia explicar o porquê das minhas atitudes, quem sabe até me perdoar. Mas a realidade é inverossímil. Meu tesouro, por sua vez, continuava a nadar persistente contra a raiva e a frustração e esforçava-se por re-encontrar a pessoa pela qual se apaixonara. Não obstante, a correnteza bravia das minhas tolices insistia em afastar-lhe mais e mais.

Até que, certa noite, um de meus furores de ciúme condensou-se num tapa, o solapar da onda na rocha indefesa.

Então ela foi embora.

E naquele dia a força com a qual a amarrava junto a mim esvaziou-se. Com apenas um olhar marejado, a fronte dolorida de tristeza e a sacola cheia de arrependimentos, ela se despediu, inundando a casa de silêncio. A verdadeira felicidade não foi dessa vez. Ou pior: veio e já passou, repentina como o lampejo de um farol. Findou-se o sonho na enchente do despertar.

Nosso nós foi diluído e o que sobrou de minha parte tinha menos de mim. O porto seguro onde repousava minha âncora já não mais existia. Só, na falta escura e gélida de uma luz-guia, tornei-me náufrago de mim mesmo.

Sentado na sofá, eu olhava as fotografias com seus sorrisos congelados e relembrava nosso réveillon juntos, a contagem regressiva pontuada de beijos. A gente a tomar sorvete numa taça gigante e a olhar a noite mesmo que as luzes da metrópole lhe ofuscassem as estrelas.

Olho para as mesmas estrelas agora, numerosas como cardumes reluzentes. Sei que são, no distante, explosões instáveis, esferas colossais que, elas também, consomem-se pouco a pouco num piscar de olhos milenar. Separadas, porém, pelo vácuo infinito, parecem perpétuas em seu brilho de teimosia eterna.

Eternidade, doce ilusão! Por mais vastos que sejam os oceanos, por mais que seus limites fujam para lá do horizonte, eles não são intermináveis e a terra firme um dia chega. Ah, a finitude! Viver é ter atado aos pés uma grande pedra, lançada ao mar no instante em que nascemos. Nossa porção de vida é o tamanho da corda, e é só questão de tempo até sermos submergidos às fossas abissais da inexistência. Sinto meu cordame, já teso, quase cedendo ao arrastar da morte. Creio que devo, para honrar a tradição, introduzir esta carta em uma garrafa e lançá-la às marés. Se ela encontrará leitor ou apenas uma porção de terra do além-mar, é indiferente. Embora vez ou outra se formem arquipélagos, todo homem é uma ilha.

solidao

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.