A noite flutua clara sobre a enseada, embebida na luz de uma Lua indiferente. Chove nos meus olhos. Em meu ser, mar a dentro, o vagalhão irrefreável da saudade varre os últimos vestígios de vida. As lembranças que tenho dela, antes tão boas, se umedecem em gotas de sofrimento, e eu já me engasgo com as memórias.

Foi aqui, neste mesmo litoral, banhado por estas mesmas ondas, que nos conhecemos, um amigo em comum fez as apresentações, atou os laços dos nossos futuros. As milhas entre a descoberta, o encantamento e o apaixonar foram percorridas a largas braçadas por ambos. E foi assim, em um dia qualquer, na breve distração do acaso, que tropeçamos na felicidade.
Lembro-me de seu sorriso esperançoso como um raio de sol por entre as nuvens. Cada vez que ela falava, tímida, suas palavras borboleteavam no ar. Que deliciosas soavam no vibrar da sua voz! Como eu desejava que fossem mesmo borboletas! Poderia aprisioná-las e admirá-las, brincar com seus rodopios, estudar o padrão das suas asas. Mas elas insistiam em voar através dos meus ouvidos, deixar casulos na memória e ir-se para além, em direção aos sonhos, às trevas, ao nada. Em pouco tempo ela se mudou para minha casa, embora já habitássemos a alma um do outro. Eu então suspeitava que tamanha alegria só era possível porque sorvida em pequenos goles. Mas mesmo naquele então, quando a presença dela me alimentava qual Sol à planta, constante, sempre havia um quero-mais, uma dança de girassol em direção à luz. A vida explodia colorida como aqueles recifes de coral em águas rasas ladeados por multiformes seres ziguezagueantes.
Nós adorávamos passear na praia, e eu vibrava no íntimo ao sentir a textura de seu cabelo ondular por entre os dedos. Aquela expressão de calma enquanto dormia, o respirar suave e ritmado, a cabeça abandonada no meu colo, as bochechas sujas de areia. Ao lado sempre erguia-se tímido e disforme um castelinho recém construído, tão frágil e pueril quanto qualquer esperança. E enquanto esquecíamos o mundo e seus males, nossos grãozinhos de felicidade se acumulavam em uma grande ampulheta que, cedo ou tarde, se esgotaria.

As semanas fluíam invisíveis em seu continuar. E nós à deriva, caminhando de mãos dadas, chutando poças d’água, sorrindo para qualquer pequenez do cotidiano. Mergulhamos um no outro: nossa concha ultramarina de amar. Tudo era Sol, tudo era céu, tudo era sim. E a imensidão dentro de nós, mesmo pequenina para os nossos sentimentos, dissipava qualquer nuvem que viesse a macular o seu azul.
Mas todo Sol há de ter seu eclipse, toda cheia há de ter sua ressaca.
O tempo passou, voraz e devorador, e os ventos sibilantes da paixão iam, pouco a pouco, aquietando-se em brisa sussurrante. A nossa empolgação, tanta que fazia doer o peito, foi se erodindo e sossegando no pingar dos dias.
Afundávamos no solo movediço das rotinas.
Veio o tempo das palavras não-ditas. O eu-te-amo encalhado na garganta, esvaindo-se em suor de esquecimento. E então as palavras mal ditas. E, por fim, as palavras malditas. Meu tom de voz tornou-se grave, trovejante. Veio a primeira lágrima, debutando em seus olhos: a primeira porção de um oceano de distância.
No imperceptível fluir do tempo nós nos afastávamos. São assim as piores tragédias, quietas, pacientes, não dão chance para alertas. Vão montando seus fragmentos aos pouquinhos, camuflando-os no calar dos olhos, nas sutilezas dos gestos, no silêncio das entrelinhas.
Ergo sobre os ombros essa culpa. A verdade, confesso, é que tornei-me ciumento, tempestuoso, e o cuidado dos primeiros dias transfigurou-se em um monstro possessivo, pronto a emergir suas presas ao sentir-se acossado. Eu rebaixei-a ao estado de coisa, uma espécie tesouro que era meu, só meu.
Eu me irritava quando, nos eventos sociais, ela já não precisava agarrar-se no meu braço e enrubescer a face a cada cumprimento que recebíamos. Ela voava livre, desenvolta, capaz de trocar palavras sobre quaisquer assuntos com qualquer pessoa. No exato instante em que percebi sua independência, estremeci. Raios! Eu deixara de ser aquela chuva de verão da qual minha flor necessitava.
Foi quando a encerrei em minha gaiola de inseguranças e passamos a sair em público somente quando as convenções sociais se faziam esmagadoras. Qualquer olhar que pousassem sobre ela me deixava irritadiço e carrancudo. Se a vida imitasse a ficção, as histórias reais fariam sentido e eu poderia explicar o porquê das minhas atitudes, quem sabe até me perdoar. Mas a realidade é inverossímil. Meu tesouro, por sua vez, continuava a nadar persistente contra a raiva e a frustração e esforçava-se por re-encontrar a pessoa pela qual se apaixonara. Não obstante, a correnteza bravia das minhas tolices insistia em afastar-lhe mais e mais.
Até que, certa noite, um de meus furores de ciúme condensou-se num tapa, o solapar da onda na rocha indefesa.
Então ela foi embora.
E naquele dia a força com a qual a amarrava junto a mim esvaziou-se. Com apenas um olhar marejado, a fronte dolorida de tristeza e a sacola cheia de arrependimentos, ela se despediu, inundando a casa de silêncio. A verdadeira felicidade não foi dessa vez. Ou pior: veio e já passou, repentina como o lampejo de um farol. Findou-se o sonho na enchente do despertar.
Nosso nós foi diluído e o que sobrou de minha parte tinha menos de mim. O porto seguro onde repousava minha âncora já não mais existia. Só, na falta escura e gélida de uma luz-guia, tornei-me náufrago de mim mesmo.
Sentado na sofá, eu olhava as fotografias com seus sorrisos congelados e relembrava nosso réveillon juntos, a contagem regressiva pontuada de beijos. A gente a tomar sorvete numa taça gigante e a olhar a noite mesmo que as luzes da metrópole lhe ofuscassem as estrelas.
Olho para as mesmas estrelas agora, numerosas como cardumes reluzentes. Sei que são, no distante, explosões instáveis, esferas colossais que, elas também, consomem-se pouco a pouco num piscar de olhos milenar. Separadas, porém, pelo vácuo infinito, parecem perpétuas em seu brilho de teimosia eterna.
Eternidade, doce ilusão! Por mais vastos que sejam os oceanos, por mais que seus limites fujam para lá do horizonte, eles não são intermináveis e a terra firme um dia chega. Ah, a finitude! Viver é ter atado aos pés uma grande pedra, lançada ao mar no instante em que nascemos. Nossa porção de vida é o tamanho da corda, e é só questão de tempo até sermos submergidos às fossas abissais da inexistência. Sinto meu cordame, já teso, quase cedendo ao arrastar da morte. Creio que devo, para honrar a tradição, introduzir esta carta em uma garrafa e lançá-la às marés. Se ela encontrará leitor ou apenas uma porção de terra do além-mar, é indiferente. Embora vez ou outra se formem arquipélagos, todo homem é uma ilha.

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